Associação afirma que falas de Mauro são deploráveis e pede que explique subtração de mortes por Covid-19


A Associação dos Docentes da UFMT – Seção Sindical do ANDES Sindicato Nacional emitiu nota lamentando a postura do governador Mauro Mendes (DEM), que questionou os métodos utilizados nos estudos, chegando a dizer que até Mãe Dináh acertava mais, mesmo que a vidente tenha morrido há alguns anos. Segundo a representante da categoria, as falas foram deploráveis. Além disto, pediu para que o Estado explique subtrações de mortes por coronavírus que ocorreram nos últimos tempos.

Em nota, a Adufmat pontuou que “para muitos governantes, o menosprezo pelo conhecimento e pela pesquisa é a forma fácil para justificar suas (in)ações como primeiros-mandatários. Alguns ‘receitam’ remédios milagrosos à revelia de opinião médica, outros apegam-se aos preceitos místicos. Como a ciência exige método, disciplina e rigor, o desrespeito desses governantes ao conhecimento científico somente revela sua pequenez diante da responsabilidade do cargo que ocupam”.

A associação ainda classificou como “deploráveis em todos os aspectos” as declarações do governador sobre os estudos. “Ao questionar a credibilidade do estudo científico, comparando-o às previsões da vidente Mãe Dináh, o Governador não somente expôs seus limites como homem público, mas revelou desconhecer o conteúdo do trabalho (se leu, não compreendeu), assim como dos Boletins que a própria Secretaria Estadual de Saúde divulga regularmente”.

“Primeiro porque a aplicação do modelo matemático foi feita a partir dos dados da Secretaria sob a responsabilidade do Governo Mauro Mendes, e, como alertaram os próprios pesquisadores, ‘a confiabilidade de tais modelos depende fortemente da confiabilidade das fontes de informação’. Não bastasse isso, como qualquer graduando mediano sabe, pesquisas trabalham com evidências, não com vidências, portanto, traduzem tendências que ‘são aproximações da realidade’ e servem aos governantes qualificados como recursos excelentes para prover políticas públicas adequadas à preservação da vida e da saúde pública”, continua a nota.

O posicionamento ainda cita levantamento feito pelo Olhar Direto, na terça-feira (21), que mostra as projeções feitas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) desde o início da pandemia, mostrando quais eram as previsões e o que, de fato, se concretizou (veja AQUI).

“Levantamento feito pelo Olhar Direto (21/07/2020) corrobora a proximidade dos estudos realizados pelo Informe Epidemiológico da UFMT com os números divulgados pela Secretaria Estadual de Saúde, em que pese esses números, muitas vezes, apresentarem discrepâncias incompreensíveis, como no caso comparado dos dias 10 e 15 de julho, quando o número de óbitos foi reduzido em 16 municípios, apresentando subtração de 24 mortes no total. Parece-nos que nem o espírito de Mãe Dinah explicaria essas discrepâncias por parte da Secretaria subordinada ao Governador Mauro Mendes”.

Por fim, a nota termina dizendo que “parabeniza aos professores-pesquisadores que produziram este Estudo e repudia as declarações de Mauro Mendes, mas sugere ao Governador mais respeito pelo conhecimento científico e, se possível, um pouco de sabedoria para utilizar-se das pesquisas que a Universidade Pública tão competente e gentilmente coloca à sua disposição para ajudá-lo na sua gestão”.

Declaração

Visivelmente incomodado, Mendes deu a declaração após ser questionado se, em sua avaliação, a Capital saíra antes da pandemia em razão de “ações adotadas pela gestão municipal”, liderada por Emanuel Pinheiro (MDB), de quem o governador é adversário público.

Mendes questionou a credibilidade de um estudo elaborado por pesquisadores dos Departamentos de Matemática e de Geografia e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que indica que a Baixada Cuiabana será a primeira a atingir o pico da pandemia e, consequentemente, a região em que a curva epidemiológica deve desacelerar inicialmente.

Professor lamentou

O professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Moisés Cecconello, um dos responsáveis pelos estudos que estão sendo feitos desde o início da pandemia no Estado, lamentou as declarações do governador Mauro Mendes (DEM), que questionou os métodos utilizados nos estudos, chegando a dizer que até Mãe Dinah acertava mais, mesmo que a vidente tenha morrido há alguns anos. Segundo o Cecconello, o chefe do Executivo poderia estar usufruindo do conhecimento gratuito, baseado em padrões internacionais, que está sendo colocado a sua disposição para conter o avanço da Covid-19.

“A gente lamenta a declaração. Desconheço as razões que levaram o governador a emitir esta opinião. Nós, enquanto pesquisadores, estamos alheios a opiniões. Ciência tem característica importante de estar alheia isto. Faz parte da nossa rotina escrever artigos para revistas cientificas que atendem os mais rigorosos critérios para serem publicados, inclusive em revistas internacionais”, disse o professor ao Olhar Direto.

Cecconello possui graduação em Matemática e mestrado e doutorado em matemática aplicada pela Unicamp.

OLHAR DIRETO
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