Muito além do 5 a 0: falta de sintonia com Dome e conflitos políticos movimentam bastidor no Flamengo

 


Por Cahê Mota, Felipe Schmidt e Fred Huber — Rio de Janeiro

 


Melhores momentos: Independiente del Valle 5 x 0 Flamengo pela 3ª rodada da Libertadores
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Melhores momentos: Independiente del Valle 5 x 0 Flamengo pela 3ª rodada da Libertadores

As avaliações a respeito do trabalho de Domènec Torrent se intensificam com o passar das horas no Flamengo. A goleada sofrida por 5 a 0 para o Del Valle, na noite de quinta-feira, em Quito-QUE, pela Libertadores, serviu de alerta e a lista de análises inclui conceito de jogo, apatia, capacidade de reação dos jogadores, entre outros fatores observados no cotidiano.

A permanência no Equador dá fôlego ao espanhol, mas também torna o duelo com o lanterna Barcelona de Guayaquil, na próxima terça-feira, praticamente decisivo. Um novo tropeço deixará a situação ainda mais delicada e com um duelo diante do Palmeiras, pelo Brasileiro, pela frente.

Estão sendo avaliados o comportamento dos jogadores, a capacidade de reação e de dar uma resposta rápida ainda em solo equatoriano. As horas seguintes ao 5 a 0 foram mais de silêncio e reflexão do que de irritação.

Domènec Torrent, técnico do Flamengo, em ação contra o Independiente del Valle — Foto: Reuters

Domènec Torrent, técnico do Flamengo, em ação contra o Independiente del Valle — Foto: Reuters

No vestiário após a goleada, Dome evitou questionamentos ou cobranças. Um silêncio que fez barulho nos corredores. O espanhol convive com questionamentos velados seja de dirigentes ou jogadores e cada vez menos tem tranquilidade para tocar o trabalho.

A multa de 2 milhões de euros (R$ 12.5 mi) pesa para qualquer tomada de decisão, mas o panorama de momento ainda indica para o respaldo do vice-presidente de futebol, Marcos Braz.

O dirigente, que também é alvo de debates na Gávea por conta da provável candidatura a vereador no Rio de Janeiro, carrega consigo a responsabilidade da escolha pelo treinador quando seus "detratores" (palavra comum ao vocabulário de dirigentes rubro-negros) faziam corrente por outro espanhol: Miguel Angel Ramirez. Justamente o algoz do 5 a 0.

O cabo de guerra gerou até bastidores animados na ocasião da saída de Jorge Jesus. Ciente da preferência de BAP pelo técnico do Independiente Del Valle, Marcos Braz antecipou sua ida para Europa na busca para um treinador, enquanto Bruno Spindel ainda resolvia questões burocráticas para ter a entrada no continente liberada.

O vice de futebol iniciou contatos, marcou reuniões, mas foi surpreendido com um corte no orçamento previsto em um primeiro momento para reposição do Mister. Seus preferidos, Leonardo Jardim e Marco Silva, passaram a ser caros demais, o que deu força a Dome. Voltar ao Brasil sem um treinador não era opção e o responsável pela pasta entendeu que o ex-auxiliar de Guardiola seria o nome ideal.

Arrascaeta em ação na derrota do Flamengo para o Independiente del Valle — Foto: Jose Jacome/Pool via REUTERS

Arrascaeta em ação na derrota do Flamengo para o Independiente del Valle — Foto: Jose Jacome/Pool via REUTERS

Miguel Angel Ramirez, por sua vez, sempre foi um fantasma para Dome. Não como possível substituto, mas como o preferido da ala fora do departamento de futebol. Veladamente, o embate deu um peso ainda maior ao resultado de Quito.

Paralelamente a todo bastidor político, há uma dificuldade de compreensão e convicção dos jogadores sobre as ideias de Dome. Os relatos de que falta clareza no comando dos treinamentos são recorrentes desde a primeira semana, e na preparação para o duelo com o Del Valle não foi diferente.

Internamente, o discurso chega a ser repetitivo: Dome é simpático, educado, uma ótima pessoa, mas tem dificuldade para colocar em prática como treinador o conhecimento que tem de futebol. De quebra, a inexperiência de seus auxiliares nas funções que desempenham - também sem largo histórico como profissionais de campo - tem incomodado.

Os questionamentos ao modelo de futebol implementado são mais fortes do que a convicção de que vai dar certo, e o Flamengo cada vez mais carece de consistência. E há, sim, uma viuvez do trabalho didático e minucioso de Jorge Jesus e seus pares. O contraste causa impacto.

A altitude de Quito ficou para trás. A delegação rubro-negra seguiu ainda na noite de quinta-feira para Guayaquil, onde encara o Barcelona, terça-feira, no estádio Monumental, pela quarta rodada do Grupo A da Libertadores. A pressão, no entanto, segue nas alturas. Muito maior do que os 2.850m de Quito.

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