Chegada de Robinho ao Santos mostra que a vida das mulheres vale menos que pedaladas para a sociedade

 


Por Jamille Bullé — Rio de Janeiro

 


A palavra ídolo tem muitas definições diferentes, mas eu duvido muito que alguma delas seja "condenado por estupro".

O futebol, o esporte e qualquer outra atividade não estão desligados da sociedade.

Robinho volta ao Santos — Foto: Santos F.C

Robinho volta ao Santos — Foto: Santos F.C

Contratar um jogador condenado por estupro é uma afronta a todas as mulheres. Celebrar essa contratação e colocá-lo no status de ídolo demonstra que o clube não está nem aí para a vida das mulheres.

Muita gente fala em "lacração" hoje em dia. Pra mim, lacração é fazer post de repúdio à violência contra mulher, mas assinar com condenado por estupro. "Lacrar" é esvaziar uma reivindicação só pelo like, pelo engajamento. Se aliar uma causa é ser fiel a ela. Não é isso que estamos vendo.

O Santos vinha fazendo uma série de posts de conscientização social, alguns deles falando sobre violência contra mulher. Mas ficou só no discurso. Um clube que contrata um condenado por estupro não parece realmente se importar com a integridade das mulheres. A albanesa do processo do Robinho, Peixe, também é uma mulher. Você realmente se importa?

Santos Robinho Twitter — Foto: Reprodução

Santos Robinho Twitter — Foto: Reprodução

Robinho foi condenado em primeira instância, mas às vezes tratam como detalhe o motivo dessa condenação. Não dá pra esquecer que foi por um crime de estupro.

Robinho é acusado de estupro na Itália — Foto: MacNicol/AFP/Getty Images

Robinho é acusado de estupro na Itália — Foto: MacNicol/AFP/Getty Images

Você se sentiria confortável vendo um homem condenado por estupro em primeira instância ser professor dos seus filhos? Médico? Psicólogo? Tenho certeza que não. Por que, então, acham normal um jogador condenado ser ídolo de um dos maiores clubes do país?

"Ah, mas ele tem história no clube", muitos vão dizer. Eu tenho uma história particular com alguém já foi meu ídolo, mas que se tornou um criminoso, e automaticamente saiu dessa posição de herói.

Em 2007, eu passei a acompanhar muito de perto o Flamengo. Em um time modesto, o meu ídolo logo se tornou o goleiro Bruno. Sim, aquele.

Eu adorava o Bruno. Jogava bola na rua com os meus amigos, e a cada boa defesa que eu fazia, eu gritava o nome dele. Porque ele era minha inspiração dentro de campo. Era.

Bruno foi preso após o assassinato de Eliza Samúdio — Foto: Agência Estado

Bruno foi preso após o assassinato de Eliza Samúdio — Foto: Agência Estado

Em 2009, o Flamengo foi campeão brasileiro. Aquela foi a primeira vez que vi o meu time conquistar o Brasileirão. Entre tantos heróis da conquista, certamente o então camisa 1 se tornou ainda mais ídolo pra mim.

E então veio o assassinato da Eliza Samúdio. Uma mistura de tristeza, raiva e decepção. Mas uma coisa era certa: aquele não era mais o meu ídolo. Ele passou a ser alguém que concentra tudo o que mais abomino. Porque o responsável por um feminicídio não pode ser quem eu admiro. Simplesmente não pode.

A ficha do goleiro Jean quando foi preso por agressão à esposa,  na Flórida. Hoje ele agora no Atlético-GO — Foto: Reprodução

A ficha do goleiro Jean quando foi preso por agressão à esposa, na Flórida. Hoje ele agora no Atlético-GO — Foto: Reprodução

O novo contratado do Santos não matou ninguém, mas foi condenado por estupro. É desolador ver dirigentes, torcedores e jornalistas tratando isso com naturalidade. Isso não é natural. Isso não é admissível.

E vale lembrar que no caso Bruno trataram com gravidade o assunto, mesmo antes de o goleiro ser condenado em todas as instâncias. Por que agora é diferente?

O sentimento é de tristeza, revolta e impotência. Por mais que usemos nossas vozes para gritar sobre o quanto isso é absurdo, parecem não nos ouvir. Mesmo quando falamos o óbvio.

O repúdio à contratação do jogador condenado por estupro não tem que partir só de mulheres. Porque é fácil isolar as repórteres e torcedoras em um ambiente onde elas ainda são minoria e são tratadas como se não pertencessem a ele. É fácil dizer que somos exageradas e histéricas. A sociedade faz isso todo dia. Homens precisam se posicionar.

Há quem diga que acusações de estupro acabam com a vida dos homens acusados. Esse exemplo mostra que nem mesmo condenações acabam com a carreira, muito menos com a vida deles. Estupros acabam com a vida das mulheres.

Contratar Robinho e tratá-lo como ídolo passa uma mensagem muito evidente: para eles, as vidas das mulheres valem menos que pedaladas.


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